26 de abril de 2003
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criadomudo

Estava eu arrumando alguns papéis em casa quando, ao olhar para o meu armário, parei pra pensar em uma coisa:
– Porque os móveis têm os nomes que têm?
Para início de conversa, os meus móveis, pelo menos, não são nada móveis. Eles até que são bem fixos. E felizmente eles são assim, pois nem consigo imaginar a confusão que seria se cada dia, ao chegar em casa, eu os encontrasse em lugares diferentes.

Mas em relação aos nomes, não consigo entender por que mantemos alguns nomes que talvez até tenham tido um sentido no passado, mas que hoje soam muito inadequados. Armário, por exemplo. Eu não conheço ninguém que guarde armas no seu armário.
O que dizer das prateleiras? Se elas fossem prateleiras, no sentido real da palavra, seria permitido guardar somente pratos nela, o que seria muito ditatorial para minha cabeça. Eu não poderia viver em um mundo tão limitante! Eu quero poder guardar até meu penico nas prateleiras, se assim o desejar, sem ter que me sentir mal por isso.
Mas nenhum, entre todos os móveis, tem o nome mais infame e humilhante do que o do criado-mudo.
Criado-mudo. Até parece idéia de algum nobre medieval:
– Faça isso certo, criado! Não foi suficiente eu ter lhe arrancado a língua?

Imagino que como hoje em dia não é mais possível arrancar as línguas dos indivíduos ao nosso bel prazer e chamá-los vexatoriamente de criados-mudos, resolveram então descarregar essa frustração dando esse nome ignóbil para o indefeso móvel.
Apesar de tudo, aqui em casa, as coisas são bem diferentes. Eu não trato meu criado-mudo como um criado-mudo, pois além dele não ser meu criado ele não pára de falar, dia e noite.

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